Por que a crise habitacional da Irlanda é considerada uma das mais graves da Europa?
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A presidente do Comitê Especial de Habitação do Parlamento Europeu, a eurodeputada italiana Irene Tinagli, afirmou recentemente que a crise habitacional da Irlanda está entre as mais severas e complexas da Europa. A declaração foi feita durante uma visita oficial ao país, quando uma delegação de parlamentares europeus esteve em Dublin para avaliar os desafios enfrentados pelo setor.
Segundo Tinagli, a crise não pode ser atribuída a uma única causa. Pelo contrário, ela resulta de uma combinação de fatores que vêm pressionando o mercado imobiliário há anos, incluindo a falta de oferta de moradias, o aumento dos despejos, a atuação de grandes investidores institucionais e a expansão dos aluguéis de curta duração.
Despejos aumentam a pressão sobre o sistema habitacional
Um dos fatores mencionados pela presidente do comitê europeu foi o impacto dos despejos no agravamento da crise.
De acordo com o jornal britânico The Guardian, organizações que atuam na área de habitação na Irlanda apontam que muitos inquilinos acabam perdendo suas casas devido à venda dos imóveis, à retirada das propriedades do mercado de aluguel ou ao aumento dos custos para os proprietários. Quando isso acontece, muitas famílias encontram dificuldades para encontrar uma nova moradia devido à escassez de imóveis disponíveis e aos altos preços dos aluguéis.
A consequência é uma pressão crescente sobre os serviços de emergência habitacional e sobre o sistema de acomodação temporária. Dados oficiais mostram que a Irlanda registra sucessivos recordes no número de pessoas vivendo em situação de sem-teto, especialmente na região de Dublin.
O papel dos investidores institucionais
Outro ponto destacado por Tinagli foi a presença de investidores institucionais no mercado imobiliário irlandês.
Esses investidores incluem fundos de investimento, fundos de pensão e empresas imobiliárias que compram grandes quantidades de imóveis residenciais, muitas vezes adquirindo edifícios inteiros ou novos empreendimentos antes mesmo de chegarem ao mercado tradicional.
Segundo o The Guardian, esse modelo se tornou particularmente comum na Irlanda após a crise financeira de 2008. Nos últimos anos, uma parcela significativa das novas construções foi destinada ao modelo conhecido como build-to-rent, no qual os imóveis são construídos especificamente para aluguel e permanecem sob controle de grandes investidores.
Os defensores desse modelo argumentam que ele ajuda a financiar a construção de novas moradias. Já os críticos afirmam que ele reduz as oportunidades para compradores individuais e contribui para a manutenção de preços elevados, especialmente em Dublin.
O crescimento dos aluguéis de curta duração

Crise habitacional da Irlanda está há décadas sendo uma pedra no sapato do governo irlandês. Foto: Pxhere
A expansão dos aluguéis de curta duração, por meio de plataformas como Airbnb e similares, também foi apontada como um dos elementos que contribuem para a pressão sobre o mercado.
Segundo o Parlamento Europeu, diversas cidades europeias têm enfrentado dificuldades porque imóveis que poderiam ser alugados para moradores permanentes acabam sendo destinados ao turismo. Isso reduz a oferta de habitação tradicional e pode contribuir para o aumento dos preços dos aluguéis.
A Comissão Europeia também reconhece que o crescimento desse tipo de acomodação tem gerado desafios em várias cidades do bloco. Em reportagem publicada pelo The Guardian, o comissário europeu para Habitação afirmou que o impacto dos aluguéis de curta duração se tornou uma preocupação crescente para governos locais e nacionais.
Na Irlanda, esse debate é especialmente relevante em cidades como Dublin, Galway e Cork, onde a demanda por moradia já supera significativamente a oferta disponível.
A falta de oferta continua sendo o principal problema

Existem milhares de casas e apartamentos vagos na ilha, apesar de tanta gente procurando um lar, o que inflaciona a crise habitacional da Irlanda. Foto: Pxhere
Embora os fatores citados contribuam para a crise, especialistas costumam apontar que a raiz do problema está na insuficiência de moradias construídas ao longo dos últimos anos.
Segundo análises publicadas pela imprensa irlandesa e por organismos europeus, a construção de novas habitações não acompanhou o crescimento populacional, a recuperação econômica e o aumento da demanda registrado após a crise financeira.
O resultado é um desequilíbrio persistente entre oferta e procura, que afeta tanto quem busca comprar um imóvel quanto quem procura uma casa para alugar.
Uma crise que preocupa toda a Europa

O valor dos imóveis na Irlanda ultrapassaram 50% em quase dez anos, o que afeta a crise habitacional. Foto: Pxhere
Apesar da gravidade da situação irlandesa, o problema não é exclusivo do país.
Segundo o Parlamento Europeu, os preços dos imóveis na União Europeia aumentaram cerca de 53% entre 2015 e 2024. No mesmo período, os aluguéis também registraram aumentos expressivos em grande parte do continente.
Por isso, a habitação passou a ser tratada como uma das principais questões sociais e econômicas da União Europeia. O Parlamento Europeu criou um comitê específico para estudar o tema, enquanto a Comissão Europeia trabalha em propostas voltadas para ampliar o acesso à moradia e enfrentar os fatores que contribuem para o aumento dos preços.
Durante sua visita à Irlanda, Irene Tinagli afirmou que não existe uma solução simples para a crise habitacional do país. Segundo ela, o desafio exige uma combinação de medidas voltadas para aumentar a oferta de moradias, proteger inquilinos, regular melhor determinados segmentos do mercado e garantir que a habitação seja tratada como uma necessidade social, e não apenas como um ativo financeiro.
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