Executivo do Dublin Airport diz que voo direto entre Irlanda e Brasil tem ‘potencial enorme’
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Uma rota aérea direta entre Irlanda e Brasil pode estar mais próxima de se tornar realidade.
A avaliação é de Eoin McGloughlin, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios de Aviação do Dublin Airport, que apresentou um estudo detalhado sobre o potencial econômico, turístico e corporativo da conexão entre os dois países.
A apresetação aconteceu durante o Brazil Showcase 2026, maior evento voltado para negócios, educação, mobilidade internacional e investimentos entre Brasil e Irlanda, que aconteceu neste sábado, 16 de maio, organizado pela Brazil-Ireland Chamber of Commerce, com cerca de 300 participantes.
Durante a palestra “Por que a conectividade importa: o papel da aviação nos negócios, no turismo e no crescimento bilateral”, McGloughlin afirmou que todos os indicadores atuais apontam para um cenário extremamente positivo para a criação de voos diretos entre Irlanda e Brasil.
Segundo ele, o mercado já possui demanda consolidada de passageiros, crescimento nas relações comerciais, expansão da comunidade brasileira na Irlanda e oportunidades relevantes de carga aérea.
O principal desafio hoje seria convencer as companhias aéreas de que existe demanda suficiente para passageiros corporativos em classes premium.
Mercado Dublin–São Paulo já supera Bruxelas em demanda

Eoin McGloughlin, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios de Aviação do Dublin Airport. Foto: Rubinho Vitti
Um dos pontos centrais do estudo foi a comparação entre o mercado Irlanda–Brasil e a recém-anunciada rota direta entre Brussels e São Paulo.
De acordo com McGloughlin, o volume de passageiros entre Dublin e São Paulo já é aproximadamente o dobro da demanda existente entre Bruxelas e São Paulo. Ainda assim, Bruxelas conseguiu atrair a nova operação aérea antes da Irlanda.
O motivo, segundo ele, está no perfil dos passageiros.
Na rota belga, cerca de 13% a 14% dos viajantes são corporativos. Já no caso Irlanda–Brasil, esse índice gira atualmente em torno de apenas 3%.
“As companhias aéreas olham para isso e entendem que Irlanda–Brasil é, principalmente, uma rota de lazer”, explicou.
Para o executivo, o desafio agora é demonstrar às empresas aéreas que existe um fluxo corporativo real entre os países, especialmente nos setores farmacêutico, tecnológico, financeiro e de serviços.
Comércio entre Irlanda e Brasil cresce rapidamente
O estudo também destacou o crescimento acelerado das relações comerciais entre os dois países.
Segundo McGloughlin, os dados mais recentes mostram um aumento significativo nas trocas comerciais entre 2023 e 2024, seguido por uma expansão ainda maior entre 2024 e 2025.
Entre os setores mais relevantes nas relações Irlanda–Brasil estão:
- farmacêutico
- tecnologia da informação
- software
- serviços
- equipamentos médicos
O executivo destacou ainda que o acordo comercial entre European Union e Mercosur pode acelerar ainda mais esse crescimento nos próximos anos.
Brasileiros na Irlanda fortalecem demanda por voos
Outro fator considerado essencial é o crescimento da comunidade brasileira na Irlanda.
Segundo McGloughlin, o chamado tráfego “VFR” (“visiting friends and relatives”, ou visitas a amigos e familiares) se torna um dos pilares mais importantes para a consolidação de rotas internacionais de longo prazo.
Atualmente, estimativas apontam que existam entre 58 mil e 80 mil brasileiros vivendo na Irlanda.
“Muitos brasileiros estão ficando na Irlanda por longos períodos, construindo carreira, casando, se estabelecendo permanentemente e criando renda disponível para viajar”, afirmou.
Ele destacou que esse perfil cria uma demanda contínua e estável para companhias aéreas.
Turismo de longa distância ganha força entre irlandeses
O estudo também revelou uma mudança importante no comportamento dos turistas irlandeses.
Segundo McGloughlin, viajantes da Irlanda estão cada vez mais interessados em destinos de longa distância fora do circuito tradicional europeu.
Ele citou como exemplo o crescimento do mercado entre Irlanda e Tailândia. Há cerca de dois anos, aproximadamente 70 mil passageiros viajavam anualmente entre os dois países utilizando conexões indiretas. Hoje, esse número já chega a cerca de 110 mil passageiros por ano.
O executivo acredita que o Brasil poderia seguir trajetória semelhante, especialmente se houver investimento em promoção turística e voos diretos.
“Os turistas querem experiências mais únicas e estão dispostos a viajar mais longe”, explicou.
Segundo ele, turistas de longa distância também costumam gastar de duas a três vezes mais durante as viagens, gerando impacto econômico relevante.
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Carga aérea é vista como argumento decisivo
A apresentação também destacou o papel estratégico da carga aérea para viabilizar financeiramente novas rotas.
McGloughlin afirmou que produtos irlandeses ligados à indústria médica e farmacêutica já possuem forte potencial de exportação para o Brasil.
Ele citou como exemplo uma estatística frequentemente utilizada no setor de aviação: 100% do Botox mundial é produzido no Condado de Mayo, na Irlanda.
Além disso, equipamentos médicos como lentes de contato, stents e ventiladores também representam oportunidades importantes de transporte aéreo.
Segundo o executivo, a carga costuma ser altamente lucrativa para as companhias aéreas porque pode ser transportada na parte inferior das aeronaves de passageiros com baixo custo operacional adicional.
Canadá é usado como exemplo do potencial Brasil–Irlanda
Durante a palestra, McGloughlin comparou o potencial brasileiro ao mercado entre Irlanda e Canada.
Após a assinatura do acordo comercial entre Canadá e União Europeia em 2017, a conectividade aérea entre Irlanda e Canadá cresceu rapidamente.
Nos últimos 11 anos:
- o número de passageiros aumentou de 272 mil para quase 700 mil
- o investimento direto irlandês no Canadá cresceu 40%
- o investimento canadense na Irlanda aumentou 150%
- o comércio de bens e serviços cresceu 300%
Segundo ele, o Brasil já reúne diversos critérios considerados fundamentais para mercados de alto crescimento:
- economia de grande porte
- forte comunidade imigrante
- expansão comercial
- potencial turístico
- demanda de carga
“A oportunidade entre Irlanda e Brasil é enorme”.
Mercado pode chegar a 400 mil passageiros
Apesar de considerar improvável que o mercado Irlanda–Brasil atinja rapidamente os níveis atuais do Canadá, McGloughlin acredita que a rota possa alcançar entre 300 mil e 400 mil passageiros dentro de uma década.
Segundo ele, no futuro, seria realisticamente possível haver tanto uma rota para São Paulo quanto para Rio de Janeiro.
Principais obstáculos ainda são aeronaves e cadeia de suprimentos
O executivo ressaltou que a indústria aérea mundial ainda enfrenta dificuldades importantes relacionadas à disponibilidade de aeronaves.
Fabricantes como Airbus e Boeing continuam lidando com atrasos de produção e problemas na cadeia global de suprimentos.
Segundo McGloughlin, companhias aéreas enfrentam desde atrasos na entrega de aviões até falta de assentos e componentes internos para equipar aeronaves.
Mesmo assim, ele afirmou que todos os indicadores ligados ao mercado Irlanda–Brasil permanecem positivos:
- forte demanda de passageiros
- crescimento corporativo
- potencial turístico elevado
- expansão da comunidade brasileira
- oportunidades relevantes de carga aérea
Irlanda já discute estratégias de promoção do Brasil
O executivo também revelou que a Tourism Ireland já discute formas de promover o Brasil de maneira semelhante às campanhas realizadas com turistas americanos.
Segundo ele, existem conversas em andamento sobre como estimular o interesse do público brasileiro pela Irlanda utilizando estratégias de turismo de lazer e experiências premium.
McGloughlin mencionou ainda o Strategic Air Access Fund, iniciativa do governo irlandês que apoia o desenvolvimento de novas rotas internacionais em parceria com companhias aéreas e órgãos de turismo.
“O Brasil está constantemente presente nessas conversas porque todos reconhecem o valor e o potencial desse mercado”, concluiu.
Entrevista com Eoin McGloughlin

Foto: Rubinho Vitti
edublin: Qual é a chance real de termos um voo direto entre Irlanda e Brasil?
Eoin McGloughlin: Bem, atualmente a Irlanda é o principal destino europeu sem voos diretos para o Brasil, então esperamos, naturalmente, que as chances sejam altas.
Houve muitos problemas recentemente envolvendo pedidos de aeronaves e logística, incluindo atrasos na entrega de aviões e, claro, a crise contínua dos combustíveis, o que está tornando a tomada de decisões mais difícil para as companhias aéreas.
Mas esperamos que esses sejam problemas de curto prazo.
Acreditamos que o mercado faz sentido. Achamos que há pessoas suficientes aqui, especialmente considerando a comunidade brasileira na Irlanda. Já ouvimos estimativas de cerca de 80 mil brasileiros vivendo aqui, além dos irlandeses que vivem no Brasil.
O comércio entre os dois países também está crescendo, e o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul certamente ajudará a impulsionar ainda mais esse crescimento.
Porque isso não se trata apenas de transporte de passageiros. Trata-se também de comércio, investimentos e oportunidades de carga aérea.
Todos esses fatores ajudam a construir o argumento comercial para uma rota direta.
Então, estamos conversando com muitas companhias aéreas e esperamos que uma dessas conversas se torne realidade.
edublin: Você acha que o limite de passageiros na Irlanda é suficiente para lidar com esse tipo de rota?
Eoin McGloughlin: O limite de passageiros realmente tem sido um obstáculo recentemente.
Nosso Ministro dos Transportes, o ministro Brian, está apresentando uma legislação neste mês, então esperamos que isso em breve seja coisa do passado.
edublin: Já existem negociações acontecendo com companhias aéreas?
Eoin McGloughlin: Estamos sempre conversando com companhias aéreas sobre muitos destinos diferentes.
Provavelmente não seria apropriado dizer especificamente com quais empresas estamos falando, mas qualquer companhia aérea interessada em operar na Irlanda é absolutamente bem-vinda para conversar conosco.
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